Caminhos fecundos entre psicanálise, filosofia e arte


Aprecio a arte como um importante instrumento de inscrição do inconsciente…
Em uma pintura, a tela em branco, toma o lugar de solo fecundo para nossos anseios mais profundos. Anseios que dormem, mas são despertados em cores e traços, no pincel de um artista.

Através de um colega de estudos, tive acesso a um pensamento do filósofo contemporâneo Peter Pal Pelbart (um estudioso da obra de Gilles Deleuze) que ilustra em seu texto: “Um desejo de Asas”, uma comparação dos anjos com os terapeutas (profissionais de ajuda). Então comecei a procura de uma imagem que retratasse com fidedignidade esse trecho.

Sempre me surpreendo com a infinita capacidade da conexão entre arte e psicanálise, com tantos outros saberes!

Em “Revelação” por Carlos Valença, encontrei a precisão de um traçado e a linguagem figurada, que caracteriza a dialógica entre Carlos e o texto de Peter. O mais curioso e importante nesse diálogo, foi a percepção de que tanto o texto, quanto a pintura, compunham um todo, mesmo sendo maior em ambas as partes. Os autores em questão, possuem uma significativa conexão com o teatro e a maestria de transmissão de saberes/conhecimento, de uma forma lúdica e poética. Essa conexão me trouxe a impressão de continuidade, entre uma obra e outra.

Peter traduz de maneira lúdica, o lugar de acolhimento daqueles que possuem, o ofício e o dom da escuta. Carlos contribui trazendo o retrato pessoal e inconsciente, em traços e cores que compõem a missão, que definiu para sua vida: escutar e transmitir sua fé.

Todos que escutamos e nos comprometemos visceralmente com a transmissão de conhecimento, sentimos um pouco dessas coisas e trazemos dentro de nós as inquietações dos anjos.

Enfim, mesmo que de forma virtual, pude estabelecer um fecundo diálogo entre esses autores. Uma conexão! Em psicanálise diríamos: Um bom encontro.

“Quando querem, ouvem os pensamentos dos homens, mulheres e crianças. Aproximam-se deles devagarzinho, inclinam a cabeça em direção ao ombro e escutam seus monólogos, suas preces, devaneios, anseios. O que faz um anjo quando percebe que a desesperança invade a alma de um humano? Toca-lhe o ombro de leve, com a ponta dos dedos, e o sofredor se dá conta de algo a roçar-lhe o entorno, mas não sabe ao certo o que. Intui uma presença estranha mas nada vê; sente como que um farfalhar de folhas, uma perturbação desconhecida, uma espécie de cintilância. E aí seu corpo caído retoma em um vigor inesperado, o pensamento de repente bifurca para longe da morte, ocorre-lhe como que um pequeno renascimento. Um pouco como um terapeuta: essa disponibilidade para ouvir, para tocar, essa presença discreta que pode às vezes suscitar um novo começo – mas também essa impotência para determinar, para resolver, para viver no lugar de”.

Por Paula Moniz
Psicóloga

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