Entrevista sobre Terapia Artistica

Entrevistadora – Fale um pouco sobre o objeto da Terapia Artística e o que você vem observando no trabalho com os pacientes.


Mary – Na Terapia Artística antroposófica, trabalhamos com dois movimentos bem nítidos, bem objetivos: contração e expansão. Este é o grande ritmo do universo. Pode-se usar também a expressão ponto e periferia, correspondendo a contração e expansão. Ainda do ponto de vista da Antroposofia, as doenças são sempre doenças que contraem e são chamadas frias ou doenças que expandem e que são chamadas inflamatórias. Estes processos estão tanto no corpo quanto na alma. Se um paciente nos traz um quadro de doença fria, de doença contrativa, pensa-se imediatamente no azul porque é essa a cor que contrai. Que movimento devo solicitar que a pessoa faça? O contra movimento. Ela tem que fazer uma expansão com, o uso da cor e começar a ser abrir. Ela está se contraindo, se esfriando e precisa abrir e esquentar. Essa pessoa está contraída em um “ponto“.

Através de exercícios terapêutico-artísticos. Ela vai se expandindo em direção à periferia. Nesse caso, ela faz um caminho do azul ao laranja, que é sua cor complementar, obtendo, consequentemente, o calor que estava faltando. Por outro lado, se um paciente chega, por exemplo, com um quadro inflamatório ou histérico está na periferia, está muito para fora. Então, temos que fazer que ele se volte para dentro, por meio das cores. O amarelo é a cor da expansão. O que posso fazer? Voltar com a cor que é complementar, ou seja, o lilás. Como esse processo acontece na prática? Sempre partindo de onde o paciente está e, através dos exercícios, criar condições para que ele conquiste a “cor oposta”, conquistando, assim, o seu equilíbrio. Temos exercícios que favorecem à pessoa um caminhar lento, passo a passo, ritmicamente. Eu costumo dizer que o tempo que essa pessoa demorou para adoecer não será o tempo que ela levará para se curar, mas há um tempo para voltar. Não há mágica. A pessoa tem que se encaminhar para a cura, conquistar a cura.
Entrevistadora - Fale um pouco sobre os papéis do terapeuta e do paciente na Terapia Artística.

Mary – A Terapia Artística é uma terapia não verbal. É terapia de imagens. Ou seja, o trabalho é no papel o tempo inteiro. Existe sempre esse triângulo paciente terapeuta - obra. O tempo inteiro o diálogo não é do paciente como o terapeuta, mas é sim, um triângulo. A referência é sempre ao trabalho, a avaliação é sempre triangular. Eu nunca digo “você está assim ou assado”. Digo “o que você percebeu, o que você sentiu ao pintar tal cor? Quer dizer, sempre temos um outro campo de atuação. Não é uma relação direta, é uma relação intermediada. Apesar de não ser verbal, é uma terapia que exige uma atividade enorme. O paciente tem que ficar muito ativo. Não posso obrigar ninguém a pintar. Um psicólogo pode ficar uma hora, cinqüenta minutos ou a sessão toda com o paciente calado à sua frente e ele pode interpretar o silêncio . No entanto, se a pessoa não fez um risco no papel, eu não tenho material. A pessoa tem que manifestar algo, nem que seja irritação ou agressão. Alguma coisa Ter que ser posta ali. Nunca me aconteceu de alguém se negar a pintar. Pinta de má vontade, pinta meio empurrada, fura um pouco o papel, mas pinta. E aí eu tenho material de trabalho. Na Antroposofia, trabalhamos o tempo inteiro na direção de chamar o Eu da pessoa. O Eu é aquela entidade dentro do ser humano que proporciona a autoconsciência. Eu não posso dizer “eu, Helena”, pois eu sou “eu, Mary e você é Helena. É o cerne da personalidade que muitas vezes está adormecido, embrutecido, desligado, enevoado, mal pintado, esboroado em termos de pintura. Então, no momento em que começamos a trabalhar, alguma coisa vai se manifestando, clareando. Há uma identificação do paciente com esse núcleo do quadro que começa a aparecer e a vontade de pintar vem a partir do Eu e o Eu atua sobre o querer da pessoa. O Eu quer se manifestar e faz o querer atuar. O papel do terapeuta é mobilizar, ficar o tempo inteiro com um Eu secundário quando a pessoa está muito lesada, muito doente, muito impossibilitada. O Terapeuta fica do lado, abdica do próprio Eu e atua como o Eu do paciente – não ego. Fica ali, captando o que seria o movimento e estimulado, apoiando. Lentamente, então, a idéia é de que o Eu do outro acorde e se sintonize. Eu também gosto de pensar que temos, o tempo inteiro uma guerra da luz com as sombras. Há um papel em branco, extremamente iluminado e dentro da alma está o negro. Dentro da alma do paciente há um lugar pesado. Quando as cores começam a preencher o papel, aquele branco começa a ser revelado. A pessoa começa a tirar um pouco da luz; alguma coisa sai do paciente e se derrama no papel, para que aquilo tudo depois não vire um papel só preto, não vire uma maçaroca, é necessário organizar o que está saindo, e talvez aí entre o papel organizador da arte. Começa-se a organizar cores e formas. Assim, o que sai do paciente vai preenchendo o papel organizadamente.
Entrevistadora – É o terapeuta, então, que ajuda a organizar?

Mary – Sim, porque ele é o Eu auxiliar e vai dando pequenos “toques” como, por exemplo “troca o pincel”, “enxuga um pouquinho”, “faça movimentos de dentro para fora ou de fora para dentro”. É um facilitador. É um grande parteiro, parteiro do Eu do outro.
Entrevistadora – Como você avalia seus pacientes e planeja o tratamento?

Mary – Quando o paciente chega, e se foi enviado por médico antroposófico, já vem com um diagnóstico. Os médicos antroposóficos conhecem a Terapia Artística e muitas vezes já fazem o encaminhamento com uma indicação do tipo “pintar tal cor, fazer tal exercício, fazer desenho de forma”. Agora, mesmo assim (ou quando o paciente chega pelas mãos de outros médicos, ou psicólogos ou ainda por intermédio de pessoas que já estão fazendo terapia artística), eu sempre começo com uma pintura livre. Digo, sempre, que não interessa o que a pessoa tem. Enquanto não pintou na minha frente não sei quem é aquela pessoa. Nem meu filho.Enquanto ele não pintou na minha frente eu não o conheci! Eu não posso saber antes como a pessoa está, porque a pintura da hora, do momento em que a pessoa pinta, não é como ela é, e sim como ela está. É como uma radiografia, um exame de sangue. Tanto que eu faço sempre essas pinturas livres intercaladas com o processo todo. Se eu quero saber como a pessoa está, dou

Um desenho livre e é muito interessante que, muitas vezes, o tema do primeiro desenho volta dali a um ano, extremamente modificado, porque a pessoa já pintou bastante, mas volta. Às vezes é a mesma forma ou a mesma cor. É muito bonito ver que há um padrão interno da pessoa, que está ali. Mas, voltando ao início do processo, eu posso pedir um, dois ou três trabalhos livres porque nem sempre um só é suficiente para fazer uma avaliação mais real. Na verdade, eu não peço nada, eu ofereço.”Você quer pintar outro?” E a pessoa quer pintar outro. Assim, eu vou formando uma imagem. O que vejo nessa imagem? O que existe em excesso e o que falta. Excesso de uma cor indica que esta cor está dominando dentro da pessoa. No físico, no mental, no psiquismo, tem um excesso de tal energia. Falta de determinada cor quer dizer a mesma coisa. É como um exame metabólico: falta vitamina a, falta vitamina C. Então começo a fazer uma imagem do que ela aquela pessoa precisa, por onde começará o equilíbrio. O que ela tem em excesso precisa ser rebaixado e o que lhe falta precisa ser aumentado. Aí começa o processo. Eu escolho os exercícios baseados nessa leitura que faço. O paciente não tem consciência do que está colocando. Como é não verbal não preciso explicar. Tudo acontece através das imagens. É muito interessante porque ele olha sua pintura e diz: “Nossa! Como pintei com vermelho!” A pessoa vê, o processo é visual. Ela percebe que há, ali, um derramamento ou um excesso de formas ou ainda que as formas são muito fechadas. Às vezes, elaborar mentalmente é muito complicado. Ver é mais fácil. No processo da palavra, só existem queixas, queixas e mais queixas. Mas, a forma sai tão livre, tão espontânea que é muito fácil ver. Aquilo não é nunca retirado do paciente. Nunca se diz “isso está errado, isso não se faz”. Está tudo ali. Apenas vão sendo acrescentadas novas coisas, sugere-se que o paciente entre num outro processo, no qual esses elementos serão usados de uma determinada forma. Um outro recurso da Terapia Artística antroposófica é a teoria dos temperamentos. Cada temperamento tema sua cor e é muito fácil ver quando um paciente é colérico ou melancólico. Difícil é avaliar uma pessoa que tem um temperamento e vive, no momento, um outro. Como a pessoa está. Muitas vezes, é diferente de como ela é. É por isso que adoecemos, porque há um conflito. Na Terapia Artística, vamos em busca da harmonia, por meio das cores.
Entrevistadora – como o material é interpretado?

Mary – Eu não interpreto de forma psicológica, mas sim de forma artística. A idéia é que as leis da arte são espirituais. E o que é uma lei espiritual? É uma lei que funciona em todo o planeta, para todas as pessoas. Funciona no universo. A lei da gravidade, por exemplo, é uma lei física, mas é uma lei espiritual porque é universal. As leis matemáticas são leis matemáticas, mas são também leis espirituais. Funcionam para esquimós, chineses e nova-iorquinos. O resultado de 1+1 é sempre 2. Não interessa em que lugar do mundo. As leis da arte também são assim. Amarelo com azul sempre dá verde, em qualquer civilização que já existiu ou que existirá. Então, isso é uma lei espiritual. Essa é a interpretação que eu dou, mas que está embutida nessa organização que a arte permite. Se temos uma desorganização artística, a idéia é a de que há uma desorganização também no paciente e interpretação é sempre dada a partir desse ponto de vista. Por que esse amarelo com azul não dá verde? Vamos pesquisar porque não dá verde. O que está faltando aqui?

Entrevistadora – Recentemente, você organizou uma exposição com o tema “Mandalas”. Porque mandalas?

Mary – Comecei a trabalhar com as mandalas há muito anos atrás. Eu não era nem terapeuta, fazia só trabalho artístico e iniciei uma pesquisa pessoal a partir da leitura de Jung e fiquei muito impressionada com toda a referência que ele faz às mandalas. Quando ali que Jung, todo dia, fazia uma mandala para ver como ele estava, comecei a tentar fazer a mesma coisa. Ele não usava a mandala como expressão, mas como avaliação para se ver internamente, para conhecer seu inconsciente. Ele não fazia o contrário, isto é, se estava bem então desenhava uma mandala. Talvez tenha sido a primeira dica de que a mandala poderia ser um exercício terapêutico. Comecei a levar os meus pacientes a fazer esse trabalho, no sentido mesmo de conquistar o centro. A mandala traz a diferenciação dentro fora que corresponde à idéia da antroposofia, já mencionada, de ponto e perferia. Passei pelo processo da subdivisão interna da mandala, relacionando-a com a numerologia, fazendo um processo que vai do um ao sete (que é sempre o processo que faço, de sete; são sempre sete trabalhos). Comecei a organizar isso, a aplicar e o resultado foi fantástico. Percebia-se o amadurecimento interno das pessoas que passavam pelo processo das mandalas.

É importante esclarecer que nem todos podem fazer logo uma mandala. É preciso estar pronto, tem que estar num determinado ponto, tem que já saber pintar, já ter passado algum tempo pintando, porque, na mandala, eu uso a técnica do velado, que é mais difícil pois pinta-se no papel seco. É preciso fazer exercícios preliminares para conhecer o velado. É preciso, também estar num momento de indagação interna – “quem sou eu?”. Geralmente a pessoa que chega, com um processo de adoecimento, não se faz essa pergunta. Ela pode se fazer N outras perguntas, mas ainda não tem esse núcleo ainda muito claro. Vai chegando lá aos poucos. A mandala é algo reflexivo. Deve ser pintada e depois contemplada. São sete mandalas. É um processo de interiorização.
Entrevistadora – E quais são as técnicas utilizadas na Terapia Artística e para quem elas são recomendadas?

Mary – A terapia artística antroposófica não se resume à pintura. A base é a aquarela sobre papel molhado e aquarela em velado. Mas, também hà a argila, o desenho em preto e branco. As cópias de quadros de artistas famosos são muito terapêuticas. E há o desenho de forma que é um tipo de desenho muito divulgado na pedagogia Waldorf, inspirado nos desenhos grego- romanos, celtas e na própria natureza. A escolha de que técnica será aplicada em cada paciente é a seguinte: cada técnica visa a um adensamento ou a uma liberação de energia. Por exemplo, um psicótico, uma pessoa que está muito fora, não deveria pintar no molhado. A água propicia uma soltura, um devaneio, liberação de forças e, no caso dessa pessoa, nós queremos traze-la de volta. Então, é recomendável argila, porque o barro, a modelagem, a tridimensionalidade, permitem trabalhar muito mais no concreto. A pintura é uma técnica bidimensional, muito ilusória. A terceira dimensão aparece na bidimensionalidade. Já na argila, as três dimensões são muito mais concretas. A pessoa amassa, faz força, o que vai ajudar nos processos encarnatórios, a trazer de volta à consciência. O trabalho mesmo de amassar, de alisar, de fazer arestas, isso tudo trás de volta a pessoa para uma situação mais concreta. Mas, por exemplo, uma mulher em gestação, não deveria fazer modelagem, porque dentro dela, as forças de criação já estão atuando. Ela precisa dessas forças para formar, dentro dela, uma criança. Para ela, então, é muito indicado pintar molhado, pela umidade, pela soltura, pelo aconchego que essa técnica pode dar. Por outro lado, num surto psicótico, a primeira coisa que fazemos é preto e branco cm carvão, que é um elemento vegetal, extremamente terra. No papel, esse contato do preto com o branco favorece o aperecimento da consciência. Nesse trabalho, tudo fica mais claro. O que é preto é preto, o que é branco é branco, o que é cinza é cinza. Mas, para pacientes que não estão em condições de manipular o barro, o velado é mais concreto e tem, praticamente, o mesmo efeito da argila. Existe, também, o trabalho em tear que é ótimo, porque no tear existe a urdidura, na qual os fios estão todos na vertical e a pessoa vai preenchendo essa estrutura com cor, com a navete, vai tecendo. É uma sensação muito bonita, é como estar tecendo a própria vida. O paciente sente que o trabalho vai crescendo, percebe as opções que vai fazendo. É muito bonito acompanhar o paciente tecendo. Quando termina, ele próprio está muito preenchido. Dentro de uma lógica, dentro do qual ávida favorece, cada um faz a sua textura. Existe mobilidade na horizontal, mas o que está na vertical já está ali. São os padrões fixos que encontramos ou desenvolvemos na vida.
Entrevistadora – O que a Terapia Artística tem de terapêutico e o que tem de artístico?

Mary – A terapia Artística é um processo simultâneo. A arte é a terapia e a terapia é a arte. O problema maior é a formação do terapeuta porque ele precisa ter uma dupla formação – A formação artística, para saber entrar em contato com as qualidades da arte, os temas da arte, e tem que ter uma formação como terapeuta, porque um artista não é um terapeuta. A minha crença é essa: a arte, por si só não cura, a não ser quando ela é dirigida e tratada como um elemento com possibilidades terapêuticas. A minha visão é a de que se uma pessoa ficar pintando só o que ela expressa só pintará a própria patologia. Os grandes artistas estão aí para mostrar que isso é verdade. Quando vemos uma retrospectiva de certos artista, podemos entender até porque alguns deles se suicidaram. O artista que se suicida entrou num “caminho sem volta”. Expressa isso artisticamente, mas não souber entrar a libertação. Não é a arte que causou o adoecimento. O artista só ficou expressando, repetindo, a patologia, não conseguindo sair, encontrar aquela cor complementar de que precisava ou a luz que procurava. Portanto, o artista que for um terapeuta – terapeuta artístico precisará ter sólida formação terapêutica, ao mesmo tempo em que deverá ser um terapeuta com profundos conhecimentos artísticos.

Entrevistadora – Que conhecimentos artísticos e terapêuticos é preciso ter?

Mary – O ideal é que a pessoa passe por um processo de formação artística mesmo, formação de uma escola de arte, onde aprenderá a lidar com as cores, com as formas. Isso é uma coisa que se aprende. É como a pessoa que tem bela voz e precisa passar pela aula de canto. Passar pelo processo criativo, no qual assimilará o processo artístico e não conhecerá só a teoria. Tem que pintar muito, muitos quilômetros e pano. Com essa formação teria que fazer um caminho terapêutico. O que é o caminho terapêutico? É conhecimento do ser humano físico e anímico. É preciso ter amor pelo ser humano. E então relacionar os dois campos o artístico e o terapêutico. Será que um pintor sabe onde fica o fígado?
Mas o terapeuta precisa saber. Posso dar um exemplo de como fazemos essa relação na Terapia Artística Antroposófica. Aqui, a compreensão do arco-íris é essencial. No Início do processo, a maioria dos pacientes exercita-se nas transições de uma cor para outra e há exercícios específicos com as cores do arco-íris. Também baseados na técnica da transição, ou seja, as cores não ficam isoladas e sim transitam de uma para outra. A maioria das mitologias faz referência ao arco-íris. Na Bíblia, por exemplo, há uma descrição do dia em que o arco das cores surgiu no céu. Foi após o dilúvio, quando as águas secaram sobre a Terra. Noé abriu a clarabóia da arca e viu que a superfície do solo estava seca. Então, Deus disse a Noé para sair com sua família e todos os seres vivos que estavam com ele. Assegurou-lhe que a partir daquele momento não haveria mais dilúvio e para selar esse compromisso, afirmou: “ coloco meu arco nas nuvens e ele se tornará um sinal da minha aliança com a terra.” Essas imagens podem nos ajudar a compreender que não haverá mais “castigos” se buscarmos a harmonia e a ligação do ser humano com o divino em si, não o divino fora. A vivência artística, dessa forma, é altamente benéfica e curativa, pois acontece de dentro para fora. Podemos dizer, então, que estamos pintando um arco-íris interno.
Fonte: Mary Porto

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