A arte vitaliza os sentimentos

Conta uma história que algumas pessoas construíram uma casa sem janelas com o interior completamente escuro. Para levar luz, encheram baldes de luz solar e tentaram transportar para o interior da casa. Ficaram admirados porque seus esforços não obtiveram sucesso.

No mundo moderno encontramos uma sombra na nossa corporeidade, na nossa experiência psicológica. Para aliviar esta carência muitas vezes descarregamos elementos artificiais no nosso mundo interno que, supostamente, deveriam trazer luz: pílulas para rejusvenescer ou drogas; ou pílulas que reforçam a memória ou que nos deixam eufóricos. Esquecemos que deste modo jamais se acende uma verdadeira luz interior.

A situação dos baldes de luz é uma imagem efetiva do panorama da modernidade. As sombras dominam o ser humano e não é à força ou com recursos artificias que se consegue iluminá-las. As janelas podem ser abertas com força própria. Só assim flui através dos sentidos e das “janelas da alma“ o mundo luminoso de que fala o filósofo indiano, Tagore: “...o mundo é o nosso segundo corpo. Com ele colocamos em harmonia completa o nosso pequeno corpo. Do universo de luz, som, contato, provém um chamado contínuo para os nossos olhos, ouvidos e membros. E a resposta a esse chamado é um ser pleno, satisfeito consigo e com os outros que consequentemente contribui para o equilíbrio do universo...“

Estamos diante de um alerta para abrirmos as janelas dos nossos sentidos; para um respiro profundo e liberatório; para nos abrirmos para a mensagem da natureza e da arte. Quem responde a esta mensagem e ao apelo da luz, do som, da cor, do odor?

É o nosso sentimento.

Atualmente o nosso sentimento está subnutrido. Por isso há uma difusão de doenças do sentimento entre elas a depressão e o medo. Além disso, a carência de vida do nosso sentimento cria pânico para encararmos os conflitos da vida moderna. São as forças do sentimento que fazem do homem um verdadeiro ser. São forças que devem ser permamentemente captadas, exercitadas e intensificadas para serem eficientes. Podemos alcançá-la de várias maneiras, por exemplo, através da vida religiosa, da vida espiritual, graças a uma disciplina interior, ou de maneira particular no âmbito das atividades artísticas. Mas o que é na realidade a essência da atividade artística ou ser receptivo à arte?

No processo artístico é indispensável a participação com todo o calor do sentimento, com atenção, dedicação a este processo e estarmos prontos para enfrentar as lutas internas. Trata-se de ativar as forças psíquicas; de identificar-se com o elemento artístico, com a cor, com a forma, com o som, o instrumento musical. Quando feito deve ser levado a sério. A arte como brincadeira dá apenas um gostinho superficial, sem uma ação realmente íntima. Permanecemos na periferia, e chegamos no máximo a um prazer estético. A potencialidade real do sentimento é muito importante e não deve ser subestimada. É ela que deve se transformar em força de luz e de calor. A arte pode ser praticada por qualquer pessoa. Porém, não se vitaliza o sentimento com uma atividade que distraia mas graças a um recolhimento.
Käte Wehrmann – Tradução Adélia B. Glória

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