A esquizofrenia e a Arte

Scliar dizia que uma condição para se fazer arte é sair do pensamento rotineiro e habitual, encontrar uma inspiração que vem do inconsciente, e deixá-la livremente ganhar formas.
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Um artigo interessante na Revista Mente e Cérebro, escrito por Morcyr Scliar que trata da relação da criatividade com as doenças mentais, ou melhor dizendo, das muitas pessoas que conseguiram expressar artisticamente de forma excepcional e que tinham diagnósticos de doenças mentais. Ficamos com algumas perguntas: Existe uma relação? As pessoas com transtornos mentais possuem uma veia de expressão mais artística que as outras pessoas? Existe um denominador comum entre criatividade e doença mental?

Scliar diz que doença mental e criatividade não são categorias mutuamente excludentes; ao contrário, freqüentemente estão associadas. Afinal, criar significa escapar de padrões habituais, inovar, surpreender. Ora, essas características podem muito bem ser aplicadas à doença mental, a tal ponto que, para alguns artistas, são inseparáveis. E cita o caso do pintor norueguês Edvard Munch (autor do famoso O grito) que era psicótico; e que temia que o tratamento pudesse reduzir ou suprimir seu potencial. O processo de elaboração mental de esquizofrênicos, é com freqüência manifesto nas artes plásticas, como mostra a notável coleção de obras de pacientes reunida por Nise da Silveira.

Segundo levanta Scliar, duas doenças têm sido associadas ao processo de criação artística: a esquizofrenia e a doença bipolar. No caso específico da literatura, contudo, a conexão parece se limitar aos bipolares, pois a essência da literatura não reside na comunicação, e é preciso um mínimo de diálogo entre escritor e leitor. No caso do bipolar essa comunicação atende a uma necessidade. Como diz o psiquiatra inglês Anthony Storr em The dynamics of creation (A dinâmica da criação), os bipolares precisam de atenção e de aprovação, como os escritores."Read me, do not let me die"("Leia-me, não me deixe morrer"), implora a poeta americana Edna St.Vincent Milay (1892-1950), então, o reconhecimento de leitores, mesmo que poucos, representa um reforço na auto-estima.

Nise da Silveira percebeu a relação da arte com a esquizofrenia e, a utilizou como parte do tratamento do paciente com esse transtorno mental. A expressão através da arte organizava os conteúdos manifestos do inconsciente e assim “arte” era produzida. Os resultados inpressionam até hoje. Nise descobriu que lidar com a arte, com a dança, com os sentimentos, suas emoções e medos, era acima de tudo, lidar com o diferente o contato com os materiais e a possibilidade de se expressar por meios alternativos fizeram reemergir em muitos pacientes sentimentos profundos e internos. Para Luiz Carlos Mello, atual diretor do Museu de Imagens do Inconsciente, o indivíduo esquizofrênico é considerado um embotamento nacional.O médico americano Benjamim Rush comparou a ezquizofrênia a um terremoto que desloca placas tectônicas do “espírito civilizado” e libera um potencial submerso equivalente a fósseis valiosos. Essa perspectiva romântica da saúde mental da doença mental ressurge com frequência no pensamento científico. Não se trata, entretanto, de fixar correlações entre criação artistica e esquizofrênica: a doença em si não faz de ninguém um racista. O paciente esquizofrênico parece recobrar mediante a criação de prática, planejamento,

Para Scliar, uma condição para se fazer arte é, sair do pensamento rotineiro e habitual, é preciso encontrar uma inspiração que segundo ele, vem do inconsciente, e deixá-la livremente ganhar formas. Muitos psicólogos e Terapeutas ocupacionais já descobriram o poder organizador da arte em seus pacientes. Nós tivemos a possibilidade de conhecer o projeto Criamundo que utiliza desse expediente com seus usuários e que têm reduzido sensivelmente o número de internações e o uso de medicamentos.

Que a arte é uma terapia para os pacientes com transtornos mentais já concluimos que sim, mas, Aristóteles, no famoso Problema XXX, nos lança uma pergunta: “Por que razão todos os que foram homens de exceção no que concerne à filosofia, à poesia ou às artes são manifestamente melancólicos?”. Tem os artistas algum tipo comum de manifestação de transtorno mental? Parece que essa pergunta não foi ainda plenamente respondida. Mas aceitar que doença mental e talento são compatíveis já é um grande progresso.

Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

Revista Viver Mente e Cérebro Ano XV - edição 182 - Março 2008
Revista Viver Mente e Cérebro Ano XV - edição 177 - Outubro 2007

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