Criatividade: um processo de vida

Partimos do pressuposto de que a criatividade e a saúde são instâncias correlacionadasna existência humana, e que processos de criação artística, por sua qualidadeinovadora e transformadora, têm um potencial terapêutico e curativo intrínseco. Éinteressante notar as semelhanças entre a linguagem de autores que escreveram sobrecriatividade e o processo criativo e a linguagem que usamos para nos referir à práticaterapêutica e seus objetivos.Alguns autores sublinharam a criatividade como um processo de vida, como umprocesso de expansão da consciência que conduz ao desenvolvimento, ao crescimentoe ao fortalecimento interior. Nos textos transcritos a seguir, podemos tranqüilamentesubstituir as palavras criatividade e processo criativo por arteterapia e processosarteterapêuticos:“Criatividade é a celebração de nossa grandeza, do nosso senso de tornar tudo possível.Criatividade é a celebração da vida. [...] Criatividade é a expressão da presença de Deusem minhas mãos, olhos, mente – na totalidade de mim. Criação no sentido da afirmaçãodo divino em cada um, de transcender a luta diária pela sobrevivência e o peso damortalidade – um clamor de angústia e celebração. [...] Finalmente, criatividade é umato de bravura. Afirma: estou disposto a arriscar o ridículo e o fracasso para poderexperienciar este dia com frescor e inovação. A pessoa que ousa criar, romper barreiras,não só partilha um milagre, mas se dá conta de que em seu processo de ser, ela é ummilagre.”Joseph Zinker“A causa principal da criatividade parece ser a mesma tendência que descobrimos num nívelprofundo como a força criativa da psicoterapia – a tendência do homem para realizar a sipróprio.”Rogers, 1961“A criatividade é um dos meios básicos pelos quais o ser humano se liberta dos grilhões nãoapenas de suas respostas já condicionadas, mas também de suas escolhas habituais.”Arieti, 1976Entre os autores brasileiros, destaca-se Fayga Ostrower, quem, de forma articulada econsistente do ponto de vista teórico, e ao mesmo tempo sensível e poética, escreveusobre a importância da criatividade no desenvolvimento humano:“A criatividade é um potencial inerente ao homem, e a realização desse potencial, uma de suasnecessidades. [...] De fato, criar e viver se interligam.”“Compreendemos na criação, que a ulterior finalidade do nosso fazer seja poder ampliar em nósa experiência de vitalidade. Criar não representa um relaxamento ou um esvaziamento pessoal,nem uma substituição imaginativa da realidade; criar representa uma intensificação do viver,um vivenciar-se no fazer; e, em vez de substituir a realidade, é a realidade, é uma realidade novaque adquire dimensões novas pelo fato de nos articularmos, em nós e perante nós mesmos, emníveis de consciência cada vez mais elevados e mais complexos. Somos nós a realidade nova. Daío sentimento do essencial e necessário no criar: o sentimento de um crescimento interior, em quenos ampliamos em nossa abertura para a vida.”“Os processos criativos são processos construtivos globais. Envolvem a personalidade toda [...].Criar é tanto estruturar quanto comunicar-se, é integrar significados e transmiti-los. Ao criarprocuramos atingir uma realidade mais profunda do conhecimento das coisas. Ganhamosconcomitantemente um sentimento de estruturação interior maior; sentimos que estamos nosdesenvolvendo em algo essencial para nosso ser.”Em todos esses exemplos, a criatividade é vista diretamente ligada a processosvitalizadores, de crescimento, de funcionamento saudável, de expansão de si, de autorealizaçãoe de alargamento do campo de experiências da vida. É um processo preciosoe fundamental da vida. Acreditar nesse potencial de criatividade e autotranscendênciaé o alicerce de todo trabalho em arteterapia.

Texto de Marta E. Maltoni Gehringer

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