A arte ao serviço da pessoa diminuída...

O PROJECTO PSICO-PEDAGÓGICO DA APPACDM-BRAGA
A APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão com Deficiência Mental) foi implantada nesta cidade de Braga, a três de Maio de 1974, quando o Sr. Comendador Félix Augusto Ribeiro, movido pela persistência amorosa de pai se reuniu com outros pais para fazer algo de positivo pelo futuro das crianças com deficiência mental, geralmente muito esquecidas pela sociedade. Apoiado também pela Dr.a Alice de Mello Tavares e pela Enfermeira D. Odette Dumont, surge oficialmente este projecto de solidariedade social, de utilidade pública, vocacionado especialmente para o atendimento, acompanhamento, e integração de indivíduos com doenças de foro psíquico, traumatológico e clínico. Esta instituição tem a capacidade de fornecer aos seus doentes um método de ensino-aprendizagem adequado ao grau de deficiência que apresentam; possui um plano de formação completo, procurando incrementar nos seus educandos as competências adequadas para o domínio de uma ocupação profissional.

Uma metodologia inovadora: a arte como terapia

Esta instituição educativa apresenta uma característica que mereceu a nossa atenção, e que, quanto a nós, distingue o seu projecto pedagógico e de formação: o relevo e a utilidade que nela tem a arte, a criação estética. A arte funciona aqui, efectivamente, como uma forma de terapia, ou seja, através da arte os doentes encontram uma forma de expressão dos seus sentimentos, da sua vida interior, de reconstrução da sua personalidade e de integração no mundo.

A expressão artística ajuda-os também – já a nível mental, intelectual e motor – a conseguirem uma maior concentração e coordenação de movimentos. É sabido que a arte pode, de facto, realizar diversas finalidades na existência humana; nesta instituição ela assume prioritariamente um papel que vai além da sua primeira função, ou seja, da função especificamente estética: a contemplação desinteressada da beleza, segundo a opinião de Kant.

A arte pode ser utilizada como instrumento pedagógico e didáctico, analisada como linguagem das emoções, capaz de intervir directamente no mundo dos nossos sentimentos, de transformar e purgar a nossa vida afectiva, numa valência catártica, que o grande Aristóteles já sublinhou há vinte e cinco séculos.

A arte liberta do isolamento através da transposição dos sentimentos para os objectos que os próprios educandos criam; tendo eles grandes dificuldades a nível da expressão oral, por intermédio da arte – desenho, pintura, construções – encontram uma forma privilegiada de comunicação, uma ponte de ligação entre o “mundo especial” deles e o nosso.

Através da arte, estes “pacientes” exprimem aquilo que pensam ou sentem: as angústias, os medos, os sofrimentos, as esperanças, as alegrias e, até mesmo, a visão pessoal que têm do mundo; daí a atenção que se presta à observação do jogo simbólico nos seus desenhos, pinturas livres, construções, etc.; estes, são instrumentos fundamentais para aquilatar o seu desenvolvimento e compreender o que se passa no seu íntimo.

Por intermédio da criação artística, os pacientes descobrem as suas potencialidades e reforçam a sua singularidade; encontram nela um espaço para combater os medos, adquirir a auto-estima e a confiança necessárias para enfrentar as relações sociais.

A arte é, hoje, considerada cada vez mais como um importante veículo na integração social, psicológica, afectiva e existencial de todos nós, e particularmente daquelas pessoas mais frágeis como as que esta instituição acolhe.São vários os benefícios que os profissionais reconhecem a esta forma de terapia através da arte: aumento da criatividade, da auto-estima, melhor integração consigo próprio e com a realidade exterior, desenvolvimento pessoal, sentido estético da realidade; em suma, ela é restituidora do equilíbrio emocional.

Por outro lado, hoje, como se sabe, vivemos numa sociedade altamente competitiva, que ameaça o equilíbrio das nossas relações interpessoais. Em consequência, as pessoas voltam-se para si mesmas criando uma cultura de indiferença, intolerância e de uma gravíssima falta de solida-riedade em relação aos outros.

Neste cenário, a mediação artística torna-se verdadeiramente imprescindível, já que a prática e o convívio com a arte nos permite estabelecer autênticas relações humanizadas com o mais profundo do outro, com o seu mundo afectivo e sentimental, a sua imaginação criativa; aproxima-nos das pessoas que vivem à nossa volta, educa-nos a apreciarmos e a respeitarmos o “diferente”, em vez de por ele nos sentirmos ameaçados.

Com a prática da arte, podemos redescobrir o belo nas nossas vidas, recuperarmos tanto a sensibilidade como a capacidade de sonhar, vislumbrar novas realidades, e inventar caminhos para a construção destes sonhos. Arriscaríamos mesmo dizer que, neste sentido, a arte realiza uma verdadeira terapia, não só de incidência individual mas também comunitária.

O trabalho que a Srª Profª Maria Emília Martins – especialista em Artes Plásticas – desenvolve nesta instituição, é o rosto visível desta inovadora metodologia. Esta profissional está a desenvolver dois tipos de actividades pedagógicas complementares: por um lado, presta apoio na parte gráfica dos trabalhos de arte, sobretudo a nível da ilustração; por outro, promove a integração sócio-educativa dos alunos: “Tento integrá-los no ensino corrente, paralelo.

Os trabalhos têm sido realizados à base de pinturas a lápis e aguadas”, diz esta professora, “mas também trabalhamos com barro e temos feito ambientes de histórias, cenários e criamos colagens de recortes”. A profª. Maria Emília vem de encontro à nossa ideia de valorização da arte e da expressão artística no trabalho de reconstrução e de integração da personalidade; considera muito importante a orientação dos pacientes na adequada utilização das cores, das formas e dos materiais. Projecta, num futuro próximo, promover uma exposição daqueles trabalhos, para que o público se apercebesse das singularidades que eles contêm, e de como as suas “diferenças” se reflectem num processo criativo cada vez mais completo; os seus autores, diz ela, “podem não apresentar grandes capacidades na aprendizagem, mas pelo menos podemos explorar o seu lado criativo, espontâneo, que é o que os artistas pretendem nas suas expressões”.

“Amar é reconhecer o outro como diferente e não como um prolongamento de nós próprios”(Marta Gautier, Tanto que eu não te disse)Foi com muita intensidade que vivemos a nossa visita à APPACDM. Neste contacto que tivemos com a instituição pudemos verificar o trabalho extraordinário que aqui se realiza, para que as pessoas portadoras de deficiência tenham fundadas perspectivas de futuro, individual e socialmente.

Nesta instituição existe uma autêntica comunidade, como se de uma grande família se tratasse, uma família preocupada, essencialmente, em proporcionar um ambiente de bem-estar aos seus membros mais carentes. A APPACDM cuida dos indivíduos com doenças de foro psíquico, de modo a promover a sua integração pessoal e o processo da sua socialização. É um trabalho dinâmico, interactivo e permanente. A instituição esforça-se por preparar os alunos com deficiência mental ligeira para viver no “mundo exterior”; já os que apresentam maior grau de deficiência, maior dificuldade em adaptar-se, podem continuar a exercer uma ocupação profissional no interior da instituição. Em qualquer caso, estes pacientes refazem aqui o seu grupo de amigos, o seu trabalho, e encontram uma pedagogia de acompanhamento que lhes oferece toda a paciência e dedicação de que necessitam. O grande móbil desta comunidade educativa consiste em fazer com que estes jovens e adultos se sintam cada vez mais úteis à sociedade, felizes com a gradual evolução que vão desenvolvendo ao longo do tempo.

Sentimos um grande contentamento interior pela existência, em Portugal, de instituições como esta: é um claro sinal de uma maior consciência da responsabilidade e dos deveres que a sociedade tem em oferecer melhores condições de formação e de vida, sobretudo às pessoas que mais necessitam.

E, na realidade, os alunos desta instituição merecem bem todo o carinho e atenção; descobrimos neles seres excepcionais, que nos oferecem muito mais do que aquilo que nos pedem; apesar das suas limitações, reconhecem bem o significado real da palavra família, amizade e dos gestos de amor; amam de maneira desinteressada, incondicional, o que nem sempre se passa connosco; experimentámos em nós que o amor que nos dedicam é totalmente altruísta, amam-nos sem esperar nada em troca.

Foi com comoção que terminámos, por agora, o contacto com esta instituição bracarense, mas também com um sentimento de alegria, por sentirmos que estas pessoas são felizes, e que a instituição se esforça por lhes oferecer uma adequada qualidade de vida.

Por último, queremos agradecer aos técnicos que trabalham nesta instituição pela simpatia que demonstraram em nos receber; e principalmente ao seu Director, Dr. José Manuel, que se revelou uma pessoa de grande carácter, de um profissionalismo forjado na dedicação e na sensibilidade aos problemas dos seus “Alunos”.

“Cada um deles é como se fosse uma flor plantada pelo criador" — diz-nos o director da APPACDM

José Manuel Mendes é actualmente o Director da APPACDM; graças à sua disponibilidade, pudemos visitar demoradamente as instalações desta instituição e apreciar o trabalho psico-pedagógico nela desenvolvido. Movidos pela curiosidade e pelo genuíno interesse que esta visita nos despertou, quisemos saber um pouco mais da vida, da orgânica, dos projectos, das finalidades, enfim, do sentido que anima o pessoal extraordinário que habita nesta casa; convidámos então para uma conversa informal o Dr. José Manuel, a que gentilmente acedeu, e da qual traçamos aqui uma síntese, sublinhando por nossa conta os aspectos mais significativos.

No que diz respeito aos objectivos que presidiram à fundação desta instituição, o Dr. José Manuel afirma que a APPACDM “nasceu para dar resposta a uma necessidade dos pais dos jovens com deficiência mental que na altura se debatiam com a dificuldade de não haver nada estruturado em termos educacionais e profissionais para os seus filhos. Nem sequer a cidadania lhes era reconhecida; só após o 25 de Abril é que isso aconteceu. Assim, a necessidade criou o órgão e aqui foi o caso”, o de criar uma instituição que respondesse às necessidades da população com carências do foro psíquico.

É certo que no distrito de Braga existem outras instituições que atendem às carências das pessoas com deficiências; porém, existe ainda um longo caminho a percorrer relativamente à deficiência mental profunda; a este nível é escassa a oferta de hipóteses de atendimento.Dado que a APPCDM alberga e presta assistência a um número significativo de pessoas, tem necessitado de ajuda financeira, não só da população bracarense, “eminentemente solidária e amiga”, como também dos organismos estatais. Em termos de projectos futuros, o Dr. José Manuel referiu, principalmente, a reestruturação das oficinas de trabalho protegido, nas quais é urgente fazer obras de conservação e ampliação, sobretudo no sector das artes gráficas, pois “todas as mais valias que possamos gerar são importantes para ajudar todos os outros centros de bem-estar e de actividades ocupacionais”.

Nesta instituição, que é fundamentalmente uma associação de Pais e Amigos, são aceites pessoas de todas as idades. Funcionam aqui duas valências: o CAO, onde estão inseridas pessoas com a escolaridade básica e, que por ausência de qualificações e possibilidades para uma in-tegração no mercado laboral, ficaram integrados nesta valência; e o centro sócio-educativo, cuja idade escolar ideal é a de 8/10 anos. Os alunos permanecem na APPACDM enquanto não reunirem condições para serem integrados no mercado de trabalho, evidentemente que estes ficam na instituição; aqui encontram um espaço para poderem desenvolver uma ocupação, um autêntico trabalho, criando “algo que sai das mãos deles, algo que eles realizam ou que ajudam a realizar. Há uma actividade estruturada que lhes permite uma ocupação para que se sintam felizes e úteis à sociedade”.

Tendo nós constatado a proximidade e o afecto entre Director e alunos, questionámo-lo sobre o que sente sempre que um aluno da instituição é bem sucedido e acolhido no mundo laboral e tem êxito na vida. Com um espontâneo sorriso nos lábios, revelou-nos que “muitos jovens com deficiência mental ligeira, não só conseguiram emprego como o mantêm, progridem nele e, mais bonito ainda, conseguiram constituir família e são excelentes pais e mães”. É então com um sentimento de festa e de júbilo que o pessoal docente do APPACDM vê um aluno alcançar os objectivos pretendidos, como se fosse algo de “nós” que se realiza com eles: “nós temos que ser os neurónios que lhes faltam, é para isso que existimos.” Quanto ao grau de probabilidade de êxito, este responsável é muito realista: “Será sempre uma utopia querermos que todas as pessoas com deficiência mental se integrem completamente na sociedade que as rodeia, sobretudo as pessoas com deficiência mental mais marcada”.

O objectivo estratégico da instituição está claramente definido: centrar o ensino e a formação na pessoa concreta, tendo presente os seus específicos limites e dificuldades, sabendo que cada caso é único e que não há receitas milagrosas a priori. É esta filosofia educacional que o leva a evitar generalizações abusivas: “Não sei bem o que é a normalidade, sei o que são comportamentos desviantes, mas a normalidade nunca a vi passear na rua, assim como nunca vi a deficiência, já vi passear na rua pessoas com deficiência e também já vi pessoas ditas normais”.

A discriminação dos deficientes mentais, coadjuvada pelo medo do desconhecido e pelo preconceito era um dos traços da sociedade portuguesa; e hoje, estaremos mais abertos e mais solidários? Na opinião deste responsável da APPACDM, este medo já não existe, ou melhor, “está a diluir-se ao longo do tempo”. Houve, de facto, uma evolução nas mentalidades; hoje em dia, as pessoas encaram a deficiência como um desafio “à construção de um mundo, feito não só à nossa semelhança, mas, que vá de encontro às necessidades das pessoas diminuídas motora e psiquicamente”. E vale a pena dar o melhor a estas “pessoas excelentes e que têm uma riqueza acrescida, dentro da sua dita pobreza”; elas indicam-nos o essencial da vida, deixando de lado todas as futilidades, ensinam-nos um novo significado da palavra felicidade - “Eles estão vacinados contra uma série de doenças graves da nossa sociedade: a inveja, a maledicência, a soberba, a avareza, a vingança, e a vontade de dominar e atropelar os outros”.

Unidos pela fragilidade humana da deficiência mental, cada uma destas pessoas constitui um caso diferente e especial, merecendo, por isso, todo o nosso apoio e dedicação. Nesta reflexão profundamente humanista, este nosso interlocutor deixa que seja a poesia a exemplificar, por fim, o seu profundo sentido de respeito pelo outro:

“Cada um deles é como se fosse uma flor plantada pelo criador. Nós temos a obrigação de estar atentos e detectar essa riqueza, procurando que ela desabroche"

Fonte: Diário do Minho

Sem comentários:

Enviar um comentário